O EVANGELHO SEGUNDO PEDRO


O EVANGELHO SEGUNDO PEDRO

Os fragmentos do Evangelho de Pedro, sem as partes inicial e final, foram descobertos
no século XIX, na tumba de um monge cristão, em Akhimin, no Alto Egito. Sua origem
remonta ao período anterior a 150 e pouco acrescenta aos Evangelhos canônicos. Justino
conhecia a existência deste texto e Serapion, bispo de Antióquia, reporta tê-lo encontrado
em sua diocese, em 190.

O EVANGELHO SEGUNDO PEDRO

Dentre os judeus, porém, ninguém lavou as mãos; nem Herodes nem nenhum outro
daqueles juizes. E, por não quererem lavar-se, Pilatos levantou-se. O rei Herodes mandou
que se encarregassem do Senhor, dizendo-lhes: "Executai o que acabo de ordenar que
façais com ele ".
José, o amigo de Pilatos e do Senhor, encontrava-se ali na ocasião. E sabendo que iam
crucificá-lo, aproximou-se de Pilatos para pedir o corpo do Senhor para levá-lo à sepultura.
Pilatos, por sua vez, mandou um recado a Herodes e pediu-lhe o corpo de Jesus.
Herodes disse: "Irmão Pilatos, mesmo que ninguém o houvesse reclamado, nós
mesmos ter-lhe-íamos dado sepultura, pois já se aproxima o Sabat e está escrito na lei que
o sol não deve se pôr-se sobre um justiçado". E com isso, entregou-o ao povo no dia
anterior ao dos Ázimos, sua festa.
Eles, segurando o Senhor, davam--lhe empurrões e diziam: "Arrastemos o Filho de
Deus, já que ele veio cair em nossas mãos".
Depois vestiram-no de púrpura e fizeram com que ele se sentasse no tribunal, dizendo:
"Julga com equidade, ó rei de Israel ".
Um deles trouxe uma coroa de espinhos e colocou-a na cabeça do Senhor. Alguns dos
presentes cuspiram-lhe no rosto, enquanto outros davam-lhe bofetadas na face. Outros
ainda o feriam com um pau e havia quem lhe batesse, dizendo: "Esta é a homenagem que
rendemos ao Filho de Deus".
Depois, levaram dois ladrões e crucificaram o Senhor no meio deles, mas ele
permanecia calado como se não sentisse dor alguma. Quando prepararam a cruz escreveram
em cima: "Este é o rei de Israel".
Depositadas as vestes diante dele, dividiram-nas em lotes e deitaram os dados sobre
elas. Um daqueles malfeitores, porém, repreendeu-os, dizendo: "Nos sofremos assim pelas
iniquidades que fizemos, mas este, que veio para ser o Salvador dos homens, em que pode
havê-los prejudicado? "
Indignados contra ele, ordenaram que não lhe quebrassem as pernas para que morresse
entre tormentos. Era então meio-dia e a escuridão tomou conta da Judéia. Foram então
tomados pela agitação, temendo que o sol se pusesse, pois Jesus ainda estava vivo e a lei
dizia que "o sol não deve pôr-se sobre um justiçado".
Um deles disse: "Dá-lhe de beber fel com vinagre". Fazendo a mistura, deram-lhe a
beberagem, e cumpriram tudo, preenchendo a medida das iniquidades acumuladas sobre
suas cabeças.
Muitos andavam por ali servindo-se de lanternas, já que pensavam que fosse noite, e
caiam por terra. O Senhor elevou sua voz dizendo: "Força minha, força minha, tu me
abandonaste". Dizendo isso, volatilizou-se e subiu ao céu. Naquele mesmo momento, o véu
do templo de Jerusalém rasgou-se em duas partes.
Então tiraram os cravos das mãos do Senhor e o estenderam no chão. A terra inteira
tremeu e um enorme pânico sobreveio. Logo o sol brilhou e comprovou-se que era a hora
nona. Alegraram-se, então, os judeus e entregaram o corpo a José para que lhe desse
sepultura, uma vez que este havia sido testemunha de todo o bem que Jesus havia feiro.
Pegando o corpo do Senhor, lavou-o, envolveu-o num lençol e colocou-o em sua
própria sepultura, chamada de Jardim de José. Então, os Judeus, os anciões e os sacerdotes
perceberam o mal que haviam acarretado para si próprios e começaram a bater no peito
dizendo: "Malditas as nossas iniquidades! Eis aqui que chega o juízo e o fim de Jerusalém".
Eu, de minha parte, estava sumido na aflição juntamente com meus amigos, e, feridos
no mais profundo da alma, mantinhamo-nos escondidos, pois éramos tidos como
malfeitores e como aqueles que pretendiam incendiar o templo. Por todas as coisas,
jejuávamos e permanecíamos sentados, lamentando-nos e chorando noite e dia até o Sabat.
Entretanto, reunidos entre si, os escribas, os fariseus e os anciãos, ao ouvirem que o
povo murmurava e batia no peito dizendo: "Quando de sua morte, sobrevieram sinais tão
assombrosos, como dizer que não foi um justo", fugiram de medo e foram ter à presença de
Pilatos em tom de súplica, dizendo: "Dá-nos soldados para que custodiem o sepulcro
durante três dias, pois pode acontecer que seus discípulos venham, retirem seu corpo e o
povo venha a nos fazer algum mal, acreditando que ressuscitou de entre os mortos".
Pilatos, então, entregou-lhes Petrônio e um centurião com soldados para que
custodiassem o sepulcro. Com eles foram também até o túmulo os anciãos e os escribas. Lá,
girando uma grande pedra, todos os que ali se encontravam presentes, juntamente com o
centurião e os soldados, puseram-se na porta do sepulcro. Além disso, gravaram sete selos e
depois de armar uma tenda, puseram-se a fazer a guarda.
Bem cedo, ao amanhecer o Sabat, uma grande multidão veio de Jerusalém e das
redondezas para ver o sepulcro selado. Mas durante a noite que precedia o domingo,
enquanto os soldados estavam fazendo a guarda de dois a dois, uma grande voz produziu-se
no céu. Viram os céus abertos e dois homens que desciam, tendo à sua volta um grande
resplendor, e aproximaram-se do sepulcro.
Aquela pedra que haviam colocado sobre a porta rolou com o seu próprio impulso e
pôs-se de lado, com o que o sepulcro ficou aberto e ambos os jovens entraram. Ao verem
isto, aqueles soldados despertaram o centurião e os anciãos, já que também estes
encontravam-se ali fazendo guarda. Estando eles explicando o que acabara de acontecer,
viram três homens que saíam do sepulcro, dois dos quais servindo de apoio a um terceiro, e
uma cruz que ia atrás deles. A cabeça dos dois primeiros chegava até o céu, enquanto que a
daquele que era conduzido por eles ultrapassava os céus.
Ouviram uma voz vinda dos céus que dizia: "Pregaste para os que dormem?". E da cruz
fez-se ouvir uma resposta: "Sim". Então eles passaram a combinar como contariam o
ocorrido a Pilatos. Enquanto se encontravam ainda confabulando entre si, novamente
apareceram os céus abertos e um homem desceu e entrou no sepulcro. Os que estavam
junto ao centurião, vendo isso, apressaram-se a ir a Pilatos ainda de noite, abandonando o
sepulcro que custodiavam. Cheios de agitação, contaram o quanto haviam visto, dizendo:
"Era verdadeiramente o filho de Deus".
Pilatos respondeu desta maneira: "Estou limpo do sangue do Filho de Deus. Fostes vós
que assim quisestes". Depois, todos se aproximaram e lhe pediram encarecidamente que
ordenasse ao centurião e ao soldados que guardassem segredo sobre o que havia visto, pois
é preferível, diziam, sermos réus do maior crime na presença de Deus a cair nas mãos do
povo judeu e sermos apedrejados.
Pilatos ordenou ao centurião a aos soldados que não dissessem nada. Na manhã do
domingo, Maria Madalena, discípula do Senhor, amedrontada por causa dos judeus, pois
estavam cheios de ira, não havia feito no sepulcro do senhor o que costumavam fazer as
mulheres pelos seus mortos queridos. Levou consigo suas amigas e foi até o sepulcro no
qual havia sido depositado. Temiam, porém, serem vistas pelos judeus e diziam: "Já que
não nos foi possível chorar e lamentar naquele dia em que foi crucificados, façamo-lo agora
pelo menos em seu sepulcro. Mas quem removerá a pedra que foi deixada à porta do
sepulcro, para que possamos entrar e sentar junto a ele e fazer o que é devido? A pedra é
muito grande e temos medo de que alguém nos veja. Se isto não for possível, ao menos
joguemos na porta o que levamos em sua memória, choremos e golpearemos o peito até
voltarmos para casa".
Foram, então, e encontraram o sepulcro aberto. Nesse instante viram ali um jovem
sentado no centro do túmulo, formoso e coberto de vestes alvíssimas, que lhes disse: "A
que vindes? A quem buscai? Porventura aquele que foi crucificado? Já ressuscitou e se foi.
Se não quiserdes crer, acercai-vos e vede o lugar onde jazia. Não está, pois ressuscitou e se
foi para o lugar de onde foi enviado".
As mulheres, aterrorizadas, fugiram. Esse era o último dia dos Ázimos e muitos partiam
de volta para suas casas uma vez terminada a festa. Nós, os doze discípulos do Senhor,
chorávamos e estávamos escondidos na aflição. Cada um, desgostoso pelo sucedido,
retornou para sua casa. Eu, Simão Pedro, de minha parte, e André, meu irmão, pegamos
nossas redes e dirigimo-nos ao mar, indo em nossa companhia Levi o de Alfeu

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